sábado, 25 de julho de 2015
sexta-feira, 24 de julho de 2015
quinta-feira, 23 de julho de 2015
quarta-feira, 22 de julho de 2015
Nossas Candidatas na Ciranda Cultural de Prendas em sua fase Interna 2015
Erika Beck
terça-feira, 21 de julho de 2015
Ciranda Cultural de Prendas
Boa noite indiada amiga, que bom estar novamente a este rancho virtual, agora de cara nova em casa nova, bueno mas sempre com o mesmo proposito de levar a Cultura Gaúcha aos quatros cantos do universo, bom hj é um dia especial para nós do CTG Roda de Carreta hoje incia nossa Ciranda Cultural de Prendas - Fase Interna , então pessoal boa sorte a todas as prendocas e muito sucesso!!! Valeu..
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Ciranda de Prendas e Entrevero de Peões fase Interna CTG Pialo da saudade
ATENÇÃO
Encerra dia 22 de Julho as 20 horas e 30 minutos, as inscrições para o concurso Internos de Prendas e Peões do CTG Pialo da Saudade - Gravataí- RS 1ª RT
Informações e Inscrições Com o Departamento Cultural - Charles Paloski - Cel 51.93902164 e-mail prendasdopialo@gmail.com
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Caverá
Caverá
O Caverá é uma região na fronteira-oeste
do Rio Grande do Sul, ouriçada de cerros, que se estende entre Rosário do Sul e
Alegrete. Na Revolução de 1923, entre os maragatos (os revolucionários) e os
chimangos (os legalistas) o Caverá foi o santuário do caudilho maragato Honório
Lemes, justamente apelidado "O Leão do Caverá".
Diz a lenda que a região, no passado, era
território de uma tribo dos Minuanos, índios bravios dos campos, ao contrário
dos Tapes e Guaranis gente mais do mato. Entre esses Minuanos, destacava-se a
figura de Camaco, guerreiro forte e altivo, mas vivendo uma paixão não
correspondida por Ponaim, a princesinha da tribo, que só amava a própria
beleza...
Os melhores frutos de suas caçadas, os
mais valiosos troféus de seus combates, Camaco vinha depositar aos pés de
Ponaim, sem conseguir dela qualquer demonstração de amor.
Um dia, achando que lhe dava uma tarefa
impossível, Ponaim disse que só se casaria com Camaco se ele trouxesse a pele do
Cervo Berá para forrar o leito do casamento. O Cervo Berá era um bicho
encantado, com o pelo brilhante - daí o seu nome. O mato era dele: Caa-Berá,
Caaverá, Caverá, finalmente.
Então Camaco resolveu caçar o cervo
encantado. Montando o seu melhor cavalo, armado com vários pares de boleadeiras,
saiu a rastrear, dizendo que só voltaria depois de caçar e courear o Cervo
Berá.
Depois de muitas luas, num fim de tarde
ele avistou a caça tão procurada na aba do cerro. O cervo estava parado, cabeça
erguida, desafiador, brilhando contra a luz do sol morrente. Sem medo, Camaco
taloneou o cavalo, desprendeu da cintura um par de boleadeiras e fez as pedras
zunirem, arrodeando por cima da cabeça. Então, no justo momento em que o Cervo
Berá deu um salto para a frente quando o guerreiro atirou as Três Marias, houve
um grande estouro no cerro e uma cerração muito forte tapou tudo. Durante três
dias e três noites os outros índios campearam Camaco e seu cavalo, mas só
acharam uma grande caverna que tina se rasgado na pedra dura do cerro e por
onde, quem sabe, Camaco e seu cavalo tinham entrado a galope atrás do Cervo Berá
para nunca mais voltar.
Próxima Lenda:João de Barro
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
São Sepé e Casa de MBororé
São Sepé
Sepé era um índio
valente e bom, que lutou contra os estrangeiros para defender a terra das
missões. Ele era predestinado por Deus e São Miguel: tinha nascido com um lunar
na testa. Nas noites escuras ou em pleno combate, o lunar de Sepé brilhava,
guiando seus soldados missioneiros. Quando ele morreu, vencido pelas armas e o
número de portugueses e espanhóis, Deus Nosso Senhor retirou de sua testa o
lunar, que colocou no céu do pampa para ser o guia de todos os gaúchos - é o
Cruzeiro do Sul.
Casa de MBororé
A lenda da Casa de MBororé (Missões)
No tempo dos Sete Povos das Missões, havia um índio velho muito fiel aos padres
jesuítas, chamado MBororé. Com a chegada dos invasores portugueses e espanhóis,
os padres precisaram fugir levando em carretas os tesouros e bens que pudessem
carregar. Assim, amontoaram o muito que não podiam levar consigo – ouro, prata,
alfaias, jóias, tudo!- e construíram ao redor uma casa branca, sem porta e sem
janela. Para evitar a descoberta da casa pelo inimigo e o conseqüente saqueio,
deixaram o velho índio fiel MBororé cuidando, com ordens severas de só entregar
o tesouro quando os jesuítas voltassem às Missões.
Mas os jesuítas nunca mais voltaram. Com o passar dos anos, o velho índio morreu e o tempo foi marcando tudo, deixando as ruínas de pé como as cicatrizes de um sonho que acabou. Acabou? Não. A Casa de MBororé continua lá num mato das Missões, imaculadamente branca, cuidada pela alma do índio fiel que ainda espera a volta dos jesuítas.
Às vezes, algum mateiro –lenhador ou caçador- dá com ela, de repente, num campestre qualquer. Imediatamente dá-se conta de que é a Casa de MBororé, cheia de tesouros. Resolve então marcar bem o local para voltar com ferramentas e abrir a força a casa que não tem porta nem janela. Guarda bem o lugar na memória pelas árvores tais e tais, pela direção do sol e coisas assim. Sai, volta com ferramentas, só que nunca mais acha de novo a Casa Branca de MBororé, sem porta e sem janela.”
Mas os jesuítas nunca mais voltaram. Com o passar dos anos, o velho índio morreu e o tempo foi marcando tudo, deixando as ruínas de pé como as cicatrizes de um sonho que acabou. Acabou? Não. A Casa de MBororé continua lá num mato das Missões, imaculadamente branca, cuidada pela alma do índio fiel que ainda espera a volta dos jesuítas.
Às vezes, algum mateiro –lenhador ou caçador- dá com ela, de repente, num campestre qualquer. Imediatamente dá-se conta de que é a Casa de MBororé, cheia de tesouros. Resolve então marcar bem o local para voltar com ferramentas e abrir a força a casa que não tem porta nem janela. Guarda bem o lugar na memória pelas árvores tais e tais, pela direção do sol e coisas assim. Sai, volta com ferramentas, só que nunca mais acha de novo a Casa Branca de MBororé, sem porta e sem janela.”
Próxima Lenda: Caverá
terça-feira, 27 de novembro de 2012
A Salamanca do Jarau
A Salamanca do Jarau
No tempo dos padres jesuítas,
existia um moço sacristão no Povo de Santo Tomé, na Argentina, do outro lado do
rio Uruguai. Ele morava numa cela de pedra nos fundos da própria igreja, na
praça principal da aldeia.
Ora, num verão mui forte, com um sol de rachar, ele não conseguiu dormir a sesta. Vai então, levantou-se, assoleado e foi até a beira da lagoa refrescar-se. Levava consigo uma guampa, que usava como copo.
Coisa estranha: a lagoa toda fervia e largava um vapor sufocante e qual não é a surpresa do sacristão ao ver sair d'água a própria Teiniaguá, na forma de uma lagartixa com a cabeça de fogo, colorada como um carbúnculo. Ele, homem religioso, sabia que a Teiniaguá - os padres diziam isso!- tinha partes com o Diabo Vermelho, o Anhangá-Pitã, que tentava os homens e arrastava todos para o inferno. Mas sabia também que a Teiniaguá era mulher, uma princesa moura encantada jamais tocada por homem.
Aquele pelo qual se apaixonasse seria feliz para sempre.
Assim, num gesto rápido, aprisionou a Teiniagá na guampa e voltou correndo para a igreja, sem se importar com o calor. Passou o dia inteiro metido na cela, inquieto, louco que chegasse a noite.
Quando as sombras finalmente desceram sobre a aldeia, ele não se sofreu: destampou a guampa para ver a Teiniaguá. Aí, o milagre: a Teiniaguá se transformou na princesa moura, que sorriu para ele e pediu vinho, com os lábios vermelhos. Ora, vinho só o da Santa Missa. Louco de amor, ele não pensou duas vezes: roubou o vinho sagrado e assim, bebendo e amando, eles passaram a noite.
No outro dia, o sacristão não prestava para nada. Mas, quando chegou a noite, tudo se repetiu. E assim foi até que os padres finalmente desconfiaram e numa madrugada invadiram a cela do sacristão. A princesa moura transformou-se em Teiniaguá e fugiu para as barrancas do rio Uruguai, mas o moço, embriagado pelo vinho e de amor foi preso e acorrentado.
Como o crime era horrível - contra Deus e a Igreja! - foi condenado a morrer no garrote vil, na praça, diante da igreja que ele tinha profanado.
No dia da execução, todo o Povo se reuniu diante da igreja de São Tomé. Então, lá das barrancas do rio Uruguai a Teiniaguá sentiu que seu amado corria perigo. Aí, com todo o poder de sua magia, começou a procurar o sacristão abrindo rombos na terra, um valos
enormes, rasgando tudo. Por um desses valos ela finalmente chegou à igreja bem na hora em que o carrasco ia garrotear o sacristão. O que se viu foi um estouro muito grande, nessa hora, parecia que o mundo inteiro vinha abaixo, houve fogo, fumaça e enxofre e tudo afundou e tudo desapareceu de vista. E quando as coisas clarearam a Teiniaguá tinha libertado o sacristão e voltado com ele para as barrancas do rio Uruguai.
Vai daí, atravessou o rio para o lado de cá e ficou uns três dias em São Francisco de Borja, procurando um lugar afastado onde os dois apaixonados pudessem viver em paz. Assim, foram parar no Cerro do Jarau, no Quaraim, onde descobriram uma caverna muito funda e comprida. E lá foram morar, os dois.
Essa caverna, no alto do Cerro, ficou encantada. Virou Salamanca, que quer dizer "gruta mágica", a Salamanca do Jarau. Quem tivesse
coragem de entrar lá, passasse 7 Provas e conseguisse sair, ficava com o corpo fechado e com sorte no amor e no dinheiro para o
resto da vida.
Na Salamanca do Jarau a Teiniaguá e o sacristão se tornaram os pais dos primeiros gaúchos do Rio Grande do Sul. Ah, ali vive
também a Mãe do Ouro, na forma de uma enorme bola de fogo. Às vezes, nas tardes ameaçando chuva, dá um grande estouro numa
das cabeças do Cerro e pula uma elevação para outra. Muita gente viu.
Ora, num verão mui forte, com um sol de rachar, ele não conseguiu dormir a sesta. Vai então, levantou-se, assoleado e foi até a beira da lagoa refrescar-se. Levava consigo uma guampa, que usava como copo.
Coisa estranha: a lagoa toda fervia e largava um vapor sufocante e qual não é a surpresa do sacristão ao ver sair d'água a própria Teiniaguá, na forma de uma lagartixa com a cabeça de fogo, colorada como um carbúnculo. Ele, homem religioso, sabia que a Teiniaguá - os padres diziam isso!- tinha partes com o Diabo Vermelho, o Anhangá-Pitã, que tentava os homens e arrastava todos para o inferno. Mas sabia também que a Teiniaguá era mulher, uma princesa moura encantada jamais tocada por homem.
Aquele pelo qual se apaixonasse seria feliz para sempre.
Assim, num gesto rápido, aprisionou a Teiniagá na guampa e voltou correndo para a igreja, sem se importar com o calor. Passou o dia inteiro metido na cela, inquieto, louco que chegasse a noite.
Quando as sombras finalmente desceram sobre a aldeia, ele não se sofreu: destampou a guampa para ver a Teiniaguá. Aí, o milagre: a Teiniaguá se transformou na princesa moura, que sorriu para ele e pediu vinho, com os lábios vermelhos. Ora, vinho só o da Santa Missa. Louco de amor, ele não pensou duas vezes: roubou o vinho sagrado e assim, bebendo e amando, eles passaram a noite.
No outro dia, o sacristão não prestava para nada. Mas, quando chegou a noite, tudo se repetiu. E assim foi até que os padres finalmente desconfiaram e numa madrugada invadiram a cela do sacristão. A princesa moura transformou-se em Teiniaguá e fugiu para as barrancas do rio Uruguai, mas o moço, embriagado pelo vinho e de amor foi preso e acorrentado.
Como o crime era horrível - contra Deus e a Igreja! - foi condenado a morrer no garrote vil, na praça, diante da igreja que ele tinha profanado.
No dia da execução, todo o Povo se reuniu diante da igreja de São Tomé. Então, lá das barrancas do rio Uruguai a Teiniaguá sentiu que seu amado corria perigo. Aí, com todo o poder de sua magia, começou a procurar o sacristão abrindo rombos na terra, um valos
enormes, rasgando tudo. Por um desses valos ela finalmente chegou à igreja bem na hora em que o carrasco ia garrotear o sacristão. O que se viu foi um estouro muito grande, nessa hora, parecia que o mundo inteiro vinha abaixo, houve fogo, fumaça e enxofre e tudo afundou e tudo desapareceu de vista. E quando as coisas clarearam a Teiniaguá tinha libertado o sacristão e voltado com ele para as barrancas do rio Uruguai.
Vai daí, atravessou o rio para o lado de cá e ficou uns três dias em São Francisco de Borja, procurando um lugar afastado onde os dois apaixonados pudessem viver em paz. Assim, foram parar no Cerro do Jarau, no Quaraim, onde descobriram uma caverna muito funda e comprida. E lá foram morar, os dois.
Essa caverna, no alto do Cerro, ficou encantada. Virou Salamanca, que quer dizer "gruta mágica", a Salamanca do Jarau. Quem tivesse
coragem de entrar lá, passasse 7 Provas e conseguisse sair, ficava com o corpo fechado e com sorte no amor e no dinheiro para o
resto da vida.
Na Salamanca do Jarau a Teiniaguá e o sacristão se tornaram os pais dos primeiros gaúchos do Rio Grande do Sul. Ah, ali vive
também a Mãe do Ouro, na forma de uma enorme bola de fogo. Às vezes, nas tardes ameaçando chuva, dá um grande estouro numa
das cabeças do Cerro e pula uma elevação para outra. Muita gente viu.
Proximas Lendas: São Sepé e Casa de MBororé
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
O Negrinho do pastoreio
O Negrinho do pastoreio
Naquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem
divisas nem cercas; somente nas volteadas se apanhava a gadaria xucra e os
veados e as avestruzes corriam sem empecilhos...
Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias-doblas e mais muita prataria;. porém era muito cauíla e muito mau, muito.
Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias-doblas e mais muita prataria;. porém era muito cauíla e muito mau, muito.
Não dava pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante;
no invemo o fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas e o minuano podiam
entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seu umbus
só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas
cacimbas.
Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de
vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se
com ele, porque o homem só dava para comer um churrasco de tourito magro;
farinha grossa e erva-caúna e nem um naco de fumo... e tudo, debaixo de tanta
somiticaria e choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele estava
lonqueando...
Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino
como uma mosca, para um bafo cabos- negros, que era o seu parelheirode
confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvio
e a quem todos chamava somente o - Negrinho
. A este não -deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afiIhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem.
. A este não -deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afiIhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem.
Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio; depois
conduzia os avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino, que o
judiava e se ria.
Um dia, depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreira com um seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro que não, que não? que a parada devia ser do dono do cavalo que ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada, mil onças de ouro.
Um dia, depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreira com um seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro que não, que não? que a parada devia ser do dono do cavalo que ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada, mil onças de ouro.
No dia aprazado, na concha da carreira havia gente como em festa de
santo grande.
Entre os dois parelheiros a gauchada não sabia se decidir, tão perfeito era e bem lançado cada um dos animais. Do baio era fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não se Ihe viam as patas baterem no chão... E do mouro era voz que quanto mais cancha, mais aguente, e que desde a largada ele ia ser como um laço que se arrebenta...
Entre os dois parelheiros a gauchada não sabia se decidir, tão perfeito era e bem lançado cada um dos animais. Do baio era fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não se Ihe viam as patas baterem no chão... E do mouro era voz que quanto mais cancha, mais aguente, e que desde a largada ele ia ser como um laço que se arrebenta...
As parcerias abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam
aperos contra rebanhos e redomões contra lenços.
- Pelo baiol Luz e doble!...
- Pelo mourol Doble e luz!...
Os corredores fizeram as suas partidas à vontade e depois as
obrigadas; e quando foi na última, fizeram ambos a sua senha e se convidaram. E
amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os parelheiros meneando cascos,
que parecia uma tormenta...
- Empate! Empate! gritavam os aficionados ao longo da cancha por
onde passava a parelha veloz, compassada como uma colhera.
- Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora! gemia o Negrinho. Se os
sete-léguas perde, o meu senhor me mata! Hip! hip! hip!...
E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio.
- Se o corta-vento ganhar é só para os pobres!... retrucava o outro corredor. Hip! hip!
- Se o corta-vento ganhar é só para os pobres!... retrucava o outro corredor. Hip! hip!
E cortava as esporas no mouro.
Mas os fletes corriam, compassados como numa colhera. Quando foi na
última quadra, o mouro vinha arrematado e o baio vinha aos tirões.., mas sempre
juntos, sempre emparelhados.
E as duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de
supetão, pós-se em pé e fez uma cara-volta, de modo que deu ao mouro tempo mais
que preciso para passa, ganhando de luz aberta! E o Negrinho, de em um
ginetaço.
- Foi mau jogo! gritava o estancieiro.
- Mau jogo! secundavam os outros da sua parceria.
A gauchada estava dividida no julgamento da carreira; mais de um
torena coçou o punho da adaga, mais de um desapresilhou a pistola, maisn de um
virou as esporas para o peito de pé... Mas o juiz, que era um velho do tempo da
guerra de Sepé-Tiarajú, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo.
Abanando a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem:
- Foi na le! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio,
ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem gateadas; quem as
ganhou venha.buscá-las. Foi na lei!
Não havia o que alegar. Despeitado e furioso, o estancieiro pagou a
parada, à vista de todos, atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu
contrário, estendido no chão.
E foi um alegrão por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou
distribuir tambeiros e leiteiras, côvados de baeta e baguais e deu o resto, de
mota, ao pobrerio. Depois as carreiras seguiram com os changueiritos que
havia.
O estancieiro retirou-se para a sua casa e veio pensando, pensando,
calado, em todo o caminho. A cara dele vinha lisa, mas o coração vinha
corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda... O trompaço das mil
onças tinha-lhe arrebentado a alma.
E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos
pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.
Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim:
Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim:
- Trinta quadras. tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta
dias ficará aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros... O
baio fica de piquete na soga e tu ficas de estaca!
O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam
pastando.
Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho,
varado de fome e já sem força nas mãos, enleou a soga num pulso e deitou-se
encostado a um cupim.
Vieram então as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar, e
todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E uma piou e
todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas asas.
O Negrinho tremia, de medo... porém de repente pensou na sua
madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu.
E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o
Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três-Marias; a estrela-d'alva
subiu... Então vieram os guaraxains ladrões e farejam o Negrinho e cortaram a
guasca da sogra. O bafo sentindo-se solto rufou a galope, e toda a tropilha com
ele, escaramuçando no escuro e desguaritando-se nas canhadas.
O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de
escárnio.
Os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se
enxergava: era a cerração que tapava tudo.
E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.
O menino maleva foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não
estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um
palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.
E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o
perdido. Rengueando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua,madrinha Nossa
Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela aceso em frente da
imagem e saiu para o campo.
Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas
restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta -ia pingando cera no
chão: e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareavarn tudo.
O gado ficou deitado, os touros não escarvaram a terra e as manadas xucras não
dispararam... Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos
relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por diante a
tropilha, até a coxilha que o seu senhor Ihe marcara.
E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu...
Gemendo, gemendo; o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo
instante apagamm-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o
Negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxúns
ladrões; porém pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, fiIho
do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo afora,
retouçando e desguaritando-se nas canhadas.
O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai
que os cavalos não estavam lá...
E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou...
O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um
palanque e dar-lhe, dar-Ihe uma surra de relho... dar-lhe até ele não mais
chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo escorrendo do corpo...
O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora Nossa, deu um suspiro
triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que morreu...
E como já era de noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova,
o estancieiro mandou atar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que
era para as formigas devorarem-Ihe a carne e o sangue e os ossos... E assanhou
bem as formigas; e quando elas, raivosas, cobriram todo o corpo do Negrinho e
começaram a trincá-lo, é que então ele se foi embora, sem olhar para
trás.
Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e
que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de
ouro.., e que tudo isto cabia folgado dentro dem um formigueiro
pequeno...
Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros
e a casca das frutas.
Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto. E três dias
houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o mesmo sonho.
A peonada bateu o campo, porém, ninguém achou a tropilha e nem
rastro.
Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo
do escravo.
Qual não foi o seu grande espanto, quando chegado perto, viu na boca
do formigueiro o Negrinho de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as
formigas que o cobriam ainda!...
O Negrinho, de pé, e ali ao lado, o cavalo baio e ali junto, a
tropilha dos trinta tordilhos.., e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o
estancieiro viu a madrinha dos que não a têm, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão
serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu...
Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.
E o Negrinho, sarado e risonho, pulando de em pêlo e sem rédeas, no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.
E o Negrinho, sarado e risonho, pulando de em pêlo e sem rédeas, no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.
E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou,
e nem se riu.
Correu no vizindário a nova dó fadário e da triste morte do
Negrinho, devorado na panela do formigueiro.
Porém logo, de perto e de longe, de todos os rumos do vento,
começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo...
E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam notícia - da mesma hora - de ter visto passa, como levada em pastoreio, uma tropilhade tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pêlo, em um cavalo baio!...
E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam notícia - da mesma hora - de ter visto passa, como levada em pastoreio, uma tropilhade tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pêlo, em um cavalo baio!...
Então, muitos acenderam velas e rezaram o Padre-nosso pela alma do
judiado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o que fosse,
pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só entregava a quem acendesse
uma vela, cuja luz ele levava para pagar a do altar da sua madrinha, a Virgem,
Nossa Senhora, que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e
pastoreia, sem ninguém ver.
Todos os anos, durante três dias, o Negrinho desaparece: está metido
em algum formigueiro grande, fazendo visita às formigas, suas amigas; a sua
tropilha esparrama-se; e um aqui, outro por lá, os seus cavalos retouçam nas
manadas das estâncias. Mas ao nascer do so do terceiro dia, o baio relincha
perto do seu ginete; o Negrinho monta-o e vai fazer a sua recolhida; é quando
nas estâncias acontece a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e não vê
ninguém, nem na ponta, nem na culatra.
Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho,
sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as restingas,
desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas e desce às canhadas. O
Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem
achados,. pelos seus donos, quando estes acendem um coto de vela, cuja luzele
leva para o altar da Virgem Senhora Nossa, madrinha dos que não a têm.
Quem perder suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum
moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio
e vá lhe dizendo - Foi por aí que eu perdi...
Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi!...
Se ele não achar: ninguém mais.
Próxima lenda: A Salamanca do Jarau
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